20 de julho de 2016

Sobre INTOLERÂNCIA e JULGAMENTOS

A cutucada da justiça



Imaginem uma Lari de 13 anos, ainda muito chorona, tímida e insegura de si. O modo como o mundo via a Lari de 13 anos, importava mais do que ela gostaria.
Essa Lari sempre dependeu de transporte público, ou ao menos desde que a mãe julgou que ela tinha idade suficiente, e ela estava certíssima, pois aprendi a me virar muito bem. Mas o foco não é esse, o foco é que a Lari de 13 anos uma vez pegou um metrô muito lotado, e ela estava em pé, em frente a um daqueles bancos de metrô marrons (para quem não sabe, aqui em SP os bancos marrons são assentos "normais" e os azuis, preferenciais) que são no mesmo sentido do trem (ou seja, você vai de lado) e que fica logo ali na porta. O vagão estava MUITO lotado. No corredor, tinha as fileiras de pessoas grudadas nos bancos e a fila de pessoas entre essas filas de pessoas perto dos bancos. Pois bem, eu estava cansada (ou ao menos o que uma menina de 13 anos considera "estar cansada") e a senhora que estava sentada num dos assentos desse banco marrom à minha frente levantou, e eu não pensei duas vezes, sentei. Daí, você que já pegou metrô deve saber, quando a gente está num vagão lotado, a gente e evita ao máximo contato visual, pois assim nós sentimos que a nossa bolha de espaço pessoal está sendo menos invadida no meio daquele encosta-encosta, aperta-aperta. Assim sendo, olhei para os pés das pessoas à minha frente para evitar o constrangimento de te rum monte de virilhas à altura dos meus olhos, quando de repente, sinto um cutucar maldoso e com uma puta duma força.
Confusa, e massageando meu braço, vejo uma senhora com olhar de LOUCA (ou apenas um olhar muito bravo com uma boca muito retorcida para baixo, não se pode confiar nas memórias de uma menina de 13 anos no corpo de uma de 25) indicando freneticamente com o indicamdor para alguém à minha frente. Quando eu olho, muito confusa ainda, vejo uma moça grávida, logo ali na minha frente. Na hora, levantei, sentindo um misto de muita vergonha, sendo esmagada pelos olhares julgadores das pessoas ao redor, e acima de tudo, o da senhora que havia me agredido (a Lari de 13 anos não queria admitir que fora agredida, mas uma cutucada com uma força que faz você fazer cara de dor e massagear a área cutucada, é sim agressão).
A moça grávida vê que os olhos da Lari de 13 anos estão com lágrimas e vê que a cara dela é de muita vergonha, e ela, muito sem graça, fala para ela "muito obrigada", meio que tentando dizer "tudo bem, eu vi que você não me viu", ao pegar o assento. Sem graça, ao ver que a Lari de 13 anos ainda estava meio chorosa, ela retoma o assunto com sua amiga que estava de pé, enquanto a senhora da cutucada maldosa sai do vagão.
A viagem prossegue algumas estações, quando o assento ao lado da moça grávida fica vago. A amiga da moça grávida, sem graça, pergunta se a Lari de 13 anos não quero sentar, mas ela já está tão envergonhada, esmagada pelos olhares julgadores, e ao mesmo tempo com tanta raiva que ela só consegue balançar a cabeça em negativa e começar a chorar. A Lari de 13 anos desceu na próxima estação mesmo não sendo a que ela ia descer, só para sair daquela situação toda, que para uma menina de 13 anos, foi traumática.
A Lari de 13 anos não queria ter roubado o assento da moça grávida, mas a Lari de 13 anos não tem olhos atrás da cabeça (assim como a Lari de 25 anos também não tem), então foi meio impossível ver a moça grávida ali atrás dela. A Lari de 13 anos não queria ter sido machucada pela "cutucada da justiça", mas a senhora que usou de uma força maldosa para fazê-lo, julgou que a Lari se apossou do assento e cagou para a moça grávida. A Lari de 13 anos não queria ter sido humilhada daquele jeito, e muito menos ter ficado quieta sobre agressão e sobre o modo como a senhora se deu o poder de julgamento sobre ela. A Lari de 13 anos só queria ter sido alertada da presença da mulher grávida com educação, para ela poder ficar envergonhada num nível saudável e pedir desculpas pela cabeça avoada. A Lari de 13 anos foi apontada e condenada, pela justiceira dos assentos para moças grávidas, e a pena foi humilhação e agressão física. A senhora definitivamente só conseguiu deixar uma menina de 13 anos muito, mas muito mais chorona, tímida e insegura, sentindo ainda mais o modo como as pessoas a julgam, e uma moça grávida e amiga de moça grávida constrangidas. Ela não conseguiu passar o bem adiante, como ela provavelmente pensou que estava fazendo, como era sua função de justiceira do bem e suas cutucadas corretoras.


Coleira moça, coleira!



A Lari de 24 anos frequentava um lugar em que ela tinha que chegar de manhã e sair no final da tarde (às vezes ela ficava até de noite, dependia) de segunda à sexta. Esse lugar tinha 3 cãezinhos de que ela gostava muito. Para preservar a identidade desses 3 cãezinhos, vamos chamá-los de Dudu, Tita e Lala.
Dudu e Tita eram irmãozinhos, cachorrinhos sem raça definida mas que se pareciam muito com labradores. Lala também era muito parecida com labrador, mas tinha as patinhas bem curtinhas, então a gente brincava que ela era um "labrador salsicha". É importante para essa curta história/conto que vocês se atentem que eles realmente se pareciam muito com labradores, inclusive Lala, que só tinha as patinhas mais curtas mesmo, mas de resto, era tão de grande porte quanto.
Como era de costume na época, a Lari de 24 anos chegou neste lugar que ela frequentava de manhã. O padrão era que os cachorros fossem presos na parte de trás do lote, em cima de uma laje cercada, e as últimas pessoas que saíssem desse lugar deveriam fechar todos os portões que antecediam ao portão da garagem, para que Dudu, Tita e Lala não escapassem. Contudo, a Lari de 24 anos, naquela fatídica manhã, ao entrar pelo portão de pedestres da garagem, virou as costas para a edificação afim de trancá-lo como de costume, mas sentiu umas porradas nas costas. A Lari de 24 anos fica assustada, mas logo se toca que são os cachorros, e aí ela fica mais assustada ainda, pois ela não conseguiu terminar de fechar o portão. Os cachorros também percebem que ela não conseguiu terminar de fechar o portão. Eles ficam LOUCOS!
Os três lutam com todas as forças para sair daquele lugar. Enquanto um "ataca" as minhas costas, outros dois tentam passar pelo vão das minhas pernas: enquanto um tenta sair por entre minhas pernas, eu as fechava; enquanto outro tenta sair pelo novo vão formado entre a minha perna e o portão, eu abria as pernas. Obviamente, uma hora essa técnica ficou mais que manjada e a Tita conseguiu sair.
Uma curiosidade sobre Tita: Tita é a que manda na hora das travessuras. Ela é quem consegue fazer traquinagem primeiro, e só então, ao ver que Tita já está traquinando, toda feliz, é os outros dois enlouquecem e também querem fazer traquinagem, igual Tita.
Logo a situação ficou incontrolável. Dudu e Lala antes estavam "tentando mas nem tanto", mas ao ver Tita ali na calçada, toda feliz e falando "vem gente!" eles colocaram força total nas "porradas" e logo a Lari de 24 anos estava no chão e os 3 estavam lá fora comemorando e correndo em direção à avenida. PUTAQUEOPARIU. ESSES BURROS VÃO MORRER ATROPELADOS.
A Lari de 24 anos saiu correndo em direção aos cachorros, gritando freneticamente o nome dos três. Se a cena do portão já era ridícula, essa era para fechar com chave de ouro. Caraca, como eles correram. Correram como se nunca mais tivessem outra chance. 
Vi o rabinho de um virando uma esquina, e segui, correndo e gritando como uma louca, pensando quem havia sido o filho da puta que deixou todos os portões intermediários apenas encostados e pensando no filho da puta que era pago para cuidar dos cachorros e colocá-los no cercadinho deles na laje ao fundo do terreno, mas que não havia colocado. Eu, que sempre era a chata que falava para todo mundo tomar cuidado com os cachorros, estava ali, pagando o pato. Se é que, ainda bem que fui eu, pois os outros iam cagar e andar e deixar os cachorros simplesmente fugirem.
Quando terminei de dobrar a esquina, vi Dudu e Tita pulando freneticamente em um senhor com um cachorrinho de colo. Eu sei que Dudu e Tita jamais morderiam alguém, eles só queriam brincar, mas quem tem cachorro de porte grande sabe que esses pulos são como porradas, e o senhor não conheciam Dudu e Tita, então ele estava completamente apavorado, tentando proteger o cachorrinho dele. Eu saí gritando "PARA DUDU, TITA SAI!!" e quando finalmente os alcancei comecei a empurrá-los e tentar tirar eles de perto do senhor, enquanto pedia desculpas entre um empurrão e outro. O senhor só respondeu com um "vou chutar esses cachorros". Respirei fundo. Ok, eu até entendo, se eu passasse um susto assim à toa eu também ficaria brava. Mas nunca ameaçaria um animal depois de perceber que eles são mansos, mas enfim, "cada um é cada um".
Não caro leitor, a pérola dessa curta história/conto não foi esse senhor, foi uma senhora muito chique e pomposa de carro, que passava por aquela rua, e que fez questão de parar o carro e tudo o que estava fazendo para repetir igual a um Pokémon repete seu nome "Coleira moça, coleira!". E lá ficou, por uns bons 2 minutos, repetindo igual a uma alucinada, "Coleira moça, coleira!" enquanto observava à mim, toda descabelada, tentando sem sucesso segurar 2 cães de grande porte enquanto o terceiro estava mais à frente, quase na avenida olhando a situação toda. "Coleira moça, coleira!". Eu olhei várias vezes torto para ela, e ela nem se importou. "Coleira moça, coleira!". Só foi embora quando se contentou com a quantidade de "Coleira moça, coleira!" ditas.
Então recapitulando: a senhora me viu desesperada, descabelada, gritando como louca o nome dos 3 cachorros, tentando separar 2 deles do senhor com o cachorrinho de colo. O que ela concluiu? Que estava passeando com eles sem coleira e eles se descontrolaram ao ver outro cachorrinho. Dá para tirar essa conclusão? Dá. Mas foi isso que de fato aconteceu? NÃO. O que aconteceu de fato foi que 3 cachorros dos quais eu gosto muito, mas que eu não sou dona e não tinha qualquer responsabilidade sobre, fugiram por descuidos que não foram os meus. A senhora olhou 2 minutos de Lari de 24 anos desesperada e descabelada e já fez uma análise completa de toda a história, de todo meu caráter. Olhou, julgou, condenou, mas nada fez para de fato, ajudar. Só quis mesmo colocar uma trilha sonora de "Coleira moça, coleira!" enquanto eu ficava sem fôlego para domar os cães.
Estava muito aflita deles serem atropelados, alguns carros passaram bem próximos a eles enquanto eles curtiam a liberdade. Estava desesperada, pois sabia que eu sozinha não conseguiria levá-los de volta, e se eu voltasse sozinha, eu os perderia de vista. Cansada e agarrada à Lala, que havia decidido voltar e ajudar os outros a se libertarem das minhas tentativas de agarrá-los, eu só sentei, sem ar para tentar pensar um pouco. E é nessas horas que o exército do Vale da Casa Arryn aparece para salvar o dia. Lá virando a esquina eu vi um rapaz que, assim como eu, precisava estar naquele lugar de manhã para sair à tarde, de segunda à sexta. Ele ouviu meus gritos de louca e foi lá me ajudar. Ele pegou Dudu no colo (ainda bem que ele era adepto à geração saúde, academia e frango com batata doce) e o levou de volta. E eu fiquei ainda sentada com a Lala, pois eu estava realmente sem ar e hiperventilando. Quando ele voltou, uma outra menina veio também com as coleiras e correntes dos cães e assim voltamos todos juntos. Final feliz.

2 comentários:

  1. Infelizmente sempre existem pessoas para nos julgar, o tempo todo. =/ O que tenho a dizer é que muitas vezes a gente acaba agindo "mal" sem perceber, e quando percebemos ficamos nos sentindo mal por conta própria pois não queríamos agir assim, foi um descuido, uma falta de atenção. Não precisaríamos de ninguém para enfatizar a nossa atitude errada. Mas sempre aparece alguém que faz questão de apontar para todo mundo (até de uma forma bem escandalosa) os nossos erros, sem ajudar nem nada, como se essa pessoa também não errasse. Por outro lado, felizmente, há também aquelas pessoas que ajudam e compreendem quando estamos passado por uma situação sujeita a diversas interpretações. E quando encontramos pessoas assim sempre lançamos nosso desejo ao mundo de que existam mais pessoas boas como essas. =)
    Beijinhos ♥

    Contadora de Histórias

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    1. Por mais pessoas compreensivas espalhando o amor! :)

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